Dizia,
há dias, o líder da Comissão de Gestão do Belenenses em
entrevista ao Jornal "A Bola" que todos os Domingos se
protestam as arbitragens em caso de derrota. E não é
apenas ele que o afirma.
Tenho
bastante pena que a nossa imprensa desportiva não possa
publicar e dar a conhecer fabulosos artigos que grandes
jornalistas, árbitros e dirigentes escreveram há quase
meio século.
Há
44 anos, João Gomes, um árbitro do Porto, escrevia
exactamente sobre os protestos, num tom semelhante,
salientando a razão de queixa da sua classe, ou seja, estarem os árbitros proibidos de
eleger os seus dirigentes. Hoje, como há quarenta e tal
anos, esta proibição mantém-se.
João
Gomes não acreditaria que hoje as coisas estão iguais ou
piores, mesmos passadas mais de três décadas sobre o
final da ditadura e da censura, altura em que o mesmo
publicou as suas opiniões.
A
Democracia ainda não chegou à arbitragem de forma a
proporcionar aos árbitros a possibilidade de elegerem os
seus dirigentes.
Sobre o
artigo de João Gomes deixo aqui, com a devida vénia, um
texto que publiquei, já lá vão cerca de três anos, no
Diário do Sul, para que possam verificar que "quase
nada é novo no futebol".
«Não há
dúvida nenhuma que protestar é uma moda que pegou e
hoje não há ninguém que não proteste. Aliás,
protestar é nos dias que correm, uma forma de
afirmação, que é legítima se for regida pela verdade
e não for apenas gratuita.
O
problema é que muitas vezes os protestantes, são
eles próprios o garante do sistema contra quem
protestam. Mas, desenganem-se aqueles que pensam que
é de hoje o protesto ou que é de hoje o protesto mal
direccionado. Desde sempre no futebol, os que
protestam parecem ignorar ou ignoram mesmo o que
está em causa quando o fazem.
Em 1964,
João Gomes, um árbitro do Porto escrevia o seguinte
contra os protestantes: "Amiúde se ouvem e lêem
verberações e acusações aos dirigentes dos diversos
departamentos desportivos. Todavia elas são
destituídas de qualquer razão, porque na maioria das
vezes os descontentes são vítimas de si próprios."
E vai mais longe ao afirmar que "triste panorama
do pobre desporto, em que se arranjam lugares para
homens, quando se devia escolher os homens para os
lugares."
Esta
frase não é de hoje, é de 1964, e, no entanto,
permanece extremamente actual. João Gomes explica
então a sua teoria: "Ainda há dias conversando
com um amigo que já não via há bastante tempo, a
breve trecho falámos de desporto e do seu clube, de
que tem sido por diversas vezes director, tendo ele
replicado que já pouco ligava ao desporto,
desiludido e desgostoso com diversos casos...".
Depois
de ouvir os lamentos do amigo, o articulista
resolver esclarecer este dirigente desportivo
comentando "Olha, não tens razão nenhuma. Queres
ver: do que se passa nas Associações, Federações,
Conselhos Técnicos, etc, sejam de que modalidade
for, a culpa é vossa, tua e dos teus colegas. Quanto
aos árbitros, é certo que haverá uns mais
competentes do que outros, aliás como em todas as
actividades da vida, mas ainda disso a culpa
continua a ser vossa. Ele arregalou os olhos e eu
nem o deixei falar. Queres saber porquê? Quem elege
as direcções das Associações? São os delegados dos
clubes, respondeu ele. Quem elege os Conselhos
Técnicos, as Federações, etc? Como vês todos os
cargos da escala hierárquica desportiva são
providos, directa ou indirectamente pelos clubes.
Ora, sendo assim, que razão vos assiste para
protestar contra o que julgais menos acertado?
Tivessem os dirigentes dos clubes a necessária
ponderação e a indispensável personalidade para
recusar a eleição de indivíduos que não reunissem um
apreciável somatório de qualidades, e o desporto
nacional caminhava muito melhor."
E João
Gomes rematava "razão de queixa temos nós, a quem
nos são impostos dirigentes, sem que sejamos ouvidos
para eleger quem quer que seja, tendo de aceitar
quem os clubes querem nomear...".
Como se
vê protestantes há muitos, ontem como hoje a maior
parte das vezes protestam sem razão, por
desconhecimento, porque não acredito que protestem
por má fé... mas no entanto vão fazendo um ruído que
afasta as pessoas da resolução dos verdadeiros
problemas do desporto português.»
José
Guerra